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Muitos se perguntam qual a relação entre o coelho, os ovos e a páscoa, considerando que o verdadeiro propósito dessa celebração é a morte e ressurreição de Jesus. À primeira vista, tal associação pode parecer estranha, contudo, suas origens são mais antigas do que se costuma imaginar.

Este panfleto não tem a pretensão de ser historicamente exaustivo. Seu objetivo é apresentar uma explicação clara e concisa sobre o tema. Caso haja interesse em um aprofundamento maior, recomenda-se a consulta à bibliografia indicada ao final desta obra.

Longe de criticar os ovos de chocolate, a ideia é apenas despertar a curiosidade. Queremos mostrar a história por trás desses costumes, revelando por que o coelho, os ovos e o chocolate ganharam tanto destaque e como eles se integraram à forma como a páscoa é celebrada em nosso tempo.

A páscoa cristã e o paganismo

A discussão em torno das origens da pascoa cristã e os elementos que a ela foram associados, ‘’o coelho e os ovos’’ nos mostram o impasse que existe quando este assunto é tratado, alguns acreditam que tais componentes não passam de mais uma incorporação pagã de Constantino ao cristianismo, isso porque, os adeptos a essa perspectiva os relacionam a deusa anglo-saxônica Ostara/Eostre (que deu origem a palavra Ostern: Páscoa, em alemão, e Easter em inglês); sempre ilustrada segurando um ovo em suas mãos enquanto observa um coelho em seus pés, Ostara, era reputada como deusa da fertilidade e do renascimento. No entanto, há controversas quanto a veracidade de sua origem, bem como, se a páscoa cristã é uma ressignificação das festividades germânicas dedicadas a esta deusa.

Os historiadores contrários a essa perspectiva argumentam que Ostara é citada em único documento datado do século VIII escrito pelo monge Beda, e isto traz algumas complicações. 1) Não há evidência fora de Beda para sua existência levando muitos historiadores a concluírem que não passara de uma construção do próprio monge 2) há relatos de que os cristãos já comemoravam a pascoa no século II, além disso, a data da celebração foi fixada por Constantino no concílio de Nicéia em (325 d.C), precedendo a data do relato de Beda 3) os povos germânicos receberam várias investidas evangelísticas nos séculos V e VI, porém, a conversão forçada e ampla dos germânicos na Europa por Carlos Magno deu-se somente em (772 d.C) 4) a etimologia das palavras Ostern (Ostara) e Easter (Eostre) geram dificuldades, já que na maioria das outras línguas europeias, o nome para celebração cristã é derivada da palavra grega Pascha, que vem de Pessach, a palavra hebraica para páscoa. Embora Ostern signifique até hoje páscoa em alemão, nenhum fato foi comprovado de que esta é a etimologia da palavra. Ao que parece, não passa de uma construção fantasiosa do monge.

O coelho nas religiões antigas

Se há contrariedades quanto alusão da páscoa, o coelho e os ovos concernente a esta deusa, qual seria a outra explicação? Começaremos identificando a simbologia do coelho nas religiões primitivas. O coelho está presente em muitas religiões antigas e em cada uma delas externalizava um aspecto sagrado. Os egípcios, por exemplo, tinham o coelho como símbolo do nascimento e da nova vida. Da mesma forma, as religiões hindu-budistas, o associavam ao renascimento e renovação. Os gregos, por sua vez, acreditavam que os coelhos podiam se reproduzir assexuadamente, e por isso eram símbolo de castidade. Entre os romanos, o naturalista Plínio o Velho, compartilhava da mesma concepção grega.

Os teólogos medievais também passaram a usá-los como símbolo do nascimento virginal de Maria, uma representação de castidade, pureza e nova vida. Obras de artes renascentistas ilustram um coelho aos pés da Virgem Maria, a mais conhecida é “A Virgem e o Coelho”

(“Madonna del Coniglio“, no italiano original) é um óleo sobre tela do pintor italiano Tiziano Vecellio (1473? – 1590) que pode ser atualmente apreciado no museu do Louvre, em Paris. Tiziano é um dos principais representantes da escola veneziana do Renascimento Europeu.

A trindade também foi simbolizada pelo coelho. O Drei-Hasen-Fenster (janela das Três Lebres) na Catedral de Paderborn é o mais famoso da Alemanha. Mas há outras localizadas na França, Inglaterra e na Ásia. Contudo, o significado do simbolismo é tido por muitos como    incerto, ao que tudo indica, inicialmente simbolizava a Virgem Maria em seu papel na redenção da humanidade, a associação feita com a trindade ocorre tempos depois. Posteriormente, parte da cristandade acaba por associar a figura do coelho que historicamente (conforme apresentamos) simbolizava ‘’renascimento, nova vida e renovação’’ a ressurreição de Jesus.

Os ovos nas religiões antigas

Assim como o coelho, os ovos também eram símbolos de vida, renascimento e renovação. Eles fazem parte de mitos da criação de muitos povos antigos, o ‘’ovo cósmico’’ do qual partes do universo ou deuses foram criados. Os egípcios acreditavam e um ovo primitivo do qual Rá, o deus sol eclodiu. O hinduísmo faz conexão entre o conteúdo do ovo e a estrutura do universo: a casca representa o céu, a clara o ar e a gema a terra. O Chandogya Upanishads descreve o ato da criação em termos da quebra de um ovo. A religião zoroastra e sua doutrina dualista. Descreve que na luta infindável entre o bem e o mal. O mal perfura o ovo e retorna à terra, e as duas forças continuam a batalha. No judaísmo, o ovo cozido faz parte da festa da Páscoa, e representa a capacidade dos judeus de manterem sua identidade mesmo em meio ao sofrimento.

Venetia Newall, folclorista anglo-americana na edição do Journal of American Folklore de 1967 relata:

O ovo cósmico, de acordo com os escritos védicos, tem um espírito vivendo dentro dele que nascerá, morrerá e nascerá novamente. Certas

versões da complicada mitologia hindu descrevem Prajapati como formando o ovo e depois aparecendo ele mesmo. Brahma faz o mesmo, e encontramos paralelos nas antigas lendas de Thoth e Rá. Imagens egípcias de Osíris, o deus do milho ressuscitado, mostram-no voltando à vida mais uma vez, saindo da casca de um ovo quebrado. A antiga lenda da Fênix é semelhante. Dizia-se que este belo pássaro mítico vivia centenas de anos. Quando seu tempo de vida completo foi completado, ele morreu em chamas, ressurgindo em uma nova forma do ovo que havia posto.

A fênix foi adotada no cristianismo primitivo como um dos símbolos da ressurreição. Segundo a lenda, a fênix criou-se a si mesma nascendo de um ovo, vivia em torno de quinhentos anos, e ao completar o tempo determinado era consumida pelas chamas em seu ninho, após três dias, a fênix renascia novamente para viver mais quinhentos anos. O teólogo Clemente de Roma em sua Primeira Carta aos Coríntios cap25 v2-6 menciona a ave proferindo ‘’quando se torna forte, levanta o sepulcro onde se encontram os restos de seu ancestral e carrega-o, voando da terra da Arábia até a cidade do Egito chamada Heliópolis’’. Progressivamente, a fênix como símbolo foi sendo abandonada pelo seu caráter lendário, e o ovo do qual emergia passou a simbolizar a ressurreição na tradição cristã, ao que parece, este mesmo ovo passou a fazer parte da Páscoa tomando lugar da ave como símbolo da ressurreição de Jesus, porém, não no aspecto criacional como religiões antigas criam, mas como uma nova vida que surge.

Coelho, ovos e sua relação

A primeira menção conhecida de uma relação entre o coelho e os ovos está contida em uma dissertação de doutorado de 1682 em latim. Georg Franck von Franckenau (1644-1704) era médico e botânico alemão, ensinou anatomia, química e botânica em Jena e tornou-se professor de medicina na Universidade de Heidelberg em 1679.

Sua dissertação possui apenas 16 páginas e era intitulada “De Ovis Paschalibus Von Oster-Eyern (“On Easter Eggs”). Neste documento ele menciona uma crença popular de um coelho com ovos encontrado nas regiões protestantes da Alsácia e do Palatinado: “Na Alsácia e regiões vizinhas, esses ovos são chamados de ovos de coelho por causa do mito contado para enganar pessoas simples e crianças de que o coelho da Páscoa anda por aí botando ovos e os escondendo nos jardins. Assim, as crianças os procuram, ainda com mais entusiasmo, para deleite dos adultos sorridentes.” (Bos, Carole; “On Easter Eggs – Georg Franck von Franckenau” 20 de março de 2016. 31 de março de 2021.)

O costume alemão de coelho que põe ovos de Páscoa expandiu-se até a América em 1700 por imigrantes luteranos. A tradição alemã proliferou-se em solo americano, e após alguns anos, um comerciante americano chamado Robert Strohecker criou o primeiro coelho de chocolate, ele continha um metro e meio de altura e foi colocado como uma promoção de Páscoa de sua farmácia. Desde então, o coelho e os ovos saíram de meras figuras e assumiram formas de chocolate. Quanto aos ovos coloridos, possivelmente essa tradição é oriunda da prática de cristãos ortodoxos da Mesopotâmia, de tingir ovos de vermelho como símbolo do sangue de Cristo.

O cristão, o coelho, os ovos e a páscoa

Uma vez que analisamos toda a questão histórica, e verificarmos como símbolos populares foram sendo incorporados à celebração da Páscoa. A pergunta que surge é: qual o verdadeiro aprendizado que se extrai dessa exposição?

Ao observarmos esse processo, percebemos um risco real e preocupante: o de transformar o símbolo em algo mais importante do que a própria realidade que ele deveria apontar. O coelho e os ovos, que são apenas representações culturais, acabaram, em muitos contextos, ocupando o lugar daquilo que é central – a morte e a ressurreição do nosso Senhor Jesus Cristo.

E aqui está o ponto: quando o símbolo ganha protagonismo, a verdade é ofuscada. Quando o acessório se torna o centro, a essência é esquecida. Não se trata de dizer que é errado comprar ovos de chocolate – sejamos sinceros, eles são deliciosos! – o ponto não é este. O problema começa quando esses elementos passam a definir o sentido da Páscoa para nós e para aqueles que nos cercam.

A Páscoa não é sobre tradição cultural. A Páscoa não é sobre consumo. A Páscoa não é sobre símbolos. A Páscoa é sobre redenção. É sobre o Cordeiro que foi morto. É sobre o sangue que foi derramado. É sobre a morte que foi vencida. Se não tivermos cuidado, corremos o risco de celebrar os sinais e esquecer o significado, de preservar os costumes e negligenciar a cruz.

Por isso, mais do que nunca, precisamos reafirmar: os símbolos podem até existir, mas jamais podem roubar o lugar da gloriosa obra da redenção. Que nunca percamos de vista aquilo que é essencial. Porque o coelho e os ovos são apenas símbolos, mas a cruz e o túmulo vazio são realidades eternas.

Ah, e se você curtiu a leitura, fica a dica: ovos de chocolate são uma ótima forma de dizer obrigado! Afinal: “Quer comais, quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus” 1Co 10.31.

 

Bibliografia

Sir Thomas Browne (1646; 6ª ed., 1672) Pseudodoxia Epidemica III:xvii (pp. 162-166)

Franck von Franckenau, Georg (1682). Disputatione ordinaria disquirens de ovis paschalibus / von Oster-Eyern. Satyrae Medicae. Vol. XVIII. Heidelberg. p. 6.

Chapman, Chris (2004). “What does the Symbol Mean?”. Three Hares Project. Retrieved 20 April 2014.

Jacqueline Simpson and Stephen Roud (2000). A Dictionary of English Folklore (Oxford)

Newall, Venetia. “Easter Eggs”, Journal of American Folklore, vol. 80, nº 315 (janeiro – março de 1967), pp. 3-32

RE Hume, ed. (1931) Os Treze Upanishads. Londres: 214-215 Clemente de Roma. Primeira Carta aos Coríntios. XXV, 2-6 Disponível em: https://blogs.loc.gov/folklife/2017/04/decoratingeggs/

Disponível em:https://www.germanway.com/historyandculture/holidaysandcelebrations/the-easter-bunny-is-german/

Disponível em: https://blogs.scientificamerican.com/anthropologyinpractice/beyondishtarthetraditionofeggsateaster/

Disponível em:https://www.christianitytoday.com/history/2009/april/waseasterborrowedfrompaganholiday.html

Disponível em: https://logosapologetica.com/a-pascoa-crista-foi-copiada-de-mitos-pagaos/

 

Firme Fundamento

Como árvores que necessitam de um bom solo para crescerem saudáveis, assim, todo cristão necessita de um "Firme Fundamento" para crescer, sendo este a própria Palavra de Deus. O ministério Firme Fundamento foi fundado com o objetivo de auxiliar, fortificar e instruir a Igreja de Jesus. Nosso objetivo é ajudar os crentes em Cristo no crescimento e desenvolvimento de sua fé por meio das Sagradas Escrituras. A igreja do Senhor necessita de homens e mulheres que estejam preparados para responder ao mundo acerca de sua fé, e nós desejamos que este ministério sirva de bênção na vida de cada um.